
"Ai de mim!" Era o que aquela voz rouca e amaldiçoada me dizia naquele momento. E eu não dei ouvidos, pensei que fosse mais um falso drama que ela - amadora- tentava interpretar na esperança de convencer um passante. Quando conseguia fazer alguém parar para ouvir, sempre tinha seus artifícios envolventes (por mais sujos que fossem), que mais cedo ou mais tarde fariam com que a vítima não tivesse mais saída, era induzida aos poucos, e quando percebia: já estava construindo o seu próprio cativeiro. Assim, mais um desavisado integrava aquele coro de vozes roucas amaldiçoadas. Mas como eu estava dizendo: eu não dei ouvidos. Ainda bem, né? Porquê eu acho que eles ficam roucos de sede e amaldiçoados porquê se conformam. De vez em quando eu me faço de vítima e brinco com o que um dia me fez tremer de medo, imitando as vozes: "ai de mim! Ai de nós!"
(Theo Macedo, 16 de outubro, 2010)

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